Como as Unidades de Atendimento de Emergência da cidade de São Paulo estão transformando o atendimento de urgência no setor público.
Summary
- Numa cidade que nunca dorme, como podemos garantir um atendimento de emergência rápido, seguro e de alta qualidade para todos? O projeto UPA em Ação oferece um exemplo claro de como métodos de melhoria podem apoiar um atendimento de emergência consistente
Todos os dias, em São Paulo — uma cidade com mais de 12 milhões de habitantes — milhares de pessoas procuram atendimento na Unidade de Pronto Atendimento (UPA). Localizadas em comunidades e fora do ambiente hospitalar, as UPAs são frequentemente o primeiro — e às vezes o único — ponto de acesso para pessoas em situações críticas: uma criança com dificuldade para respirar, um idoso com sintomas de AVC, uma gestante com dor.
Por trás de cada atendimento está o coração do sistema público de saúde brasileiro: universal, robusto e profundamente comprometido com a equidade. No entanto, os desafios persistem. O atendimento a condições potencialmente fatais muitas vezes varia entre equipes e unidades, e o uso consistente de protocolos clínicos ainda precisa ser aprimorado. Como resultado, o atendimento oportuno e seguro pode depender mais das circunstâncias do que da confiabilidade.
Essa realidade deu origem à UPA em Ação, uma iniciativa liderada pela Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo para fortalecer a qualidade e a segurança do paciente em 11 UPAs da cidade. O projeto começou com uma pergunta simples, porém poderosa: Como podemos tornar o atendimento de emergência confiável e livre de variações?
Desenvolvida em parceria com a Secretaria Executiva de Atenção Primária, Especializada e de Vigilância em Saúde da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, o Hospital Einstein Israelita e o IHI, a UPA em Ação transformou 11 UPAs piloto em laboratórios vivos de aprimoramento. Essas unidades são espaços onde os profissionais recebem apoio para prestar o cuidado certo, na hora certa, a cada paciente com doença grave — salvando vidas e fortalecendo o Sistema Único de Saúde (SUS) do Brasil.
Os 5Rs: da “Falha no Resgate” a uma Cultura de Melhoria Contínua
Inspirado no conceito internacional de "falha no resgate", o projeto introduziu mudanças que reduzem o desperdício, previnem danos e constroem confiança.
A base da iniciativa é o modelo dos 5Rs: Reconhecer, Resgatar, Reavaliar, Encaminhar e Refletir — no manejo de pacientes com doenças crônicas graves. O modelo combina experiência clínica com a ciência da melhoria centrada no paciente. O foco não está apenas no que fazer, mas em como fazê-lo de forma confiável, sempre, para cada paciente. O quinto R, Refletir, fecha o ciclo. As equipes revisam os resultados, celebram os sucessos e fazem ajustes rapidamente. Essa prática, muitas vezes negligenciada, sustenta os ganhos e fortalece o aprendizado coletivo.
Essa abordagem tem resultados comprovados. Na Escócia, ajudou a tornar o atendimento à sepse mais consistente e seguro. No Brasil, contribuiu para uma redução de 100% nas mortes maternas por sepse em projetos específicos. Em países africanos, apoiou uma redução de 36% na mortalidade pós-operatória. Agora, o modelo foi adaptado às UPAs de São Paulo. A equipe do IHI na América Latina estava confiante de que os 5Rs elevariam significativamente a qualidade e a segurança do atendimento ao paciente e salvariam muitas vidas.
Transformando evidências em prática diária
Para tornar essa visão operacional, o projeto introduziu o CARE PATHS (Patient Assistance Tracking and Health Standards), ou TRILHAS em português (Termo de Registro Integrado de Linha de Assistência) — fluxos estruturados que integram orientações clínicas, ferramentas de apoio à decisão e padrões de documentação. Seu objetivo é reduzir a variabilidade e a carga cognitiva em momentos críticos.
“Cada TRILHA ou PATHS é mais do que um protocolo”, explicou Daniela Siccardi, diretora do IHI e líder do projeto. “É um mapa visual do cuidado — um kanban que mostra o que já foi feito e o que ainda precisa ser feito enquanto o paciente está sendo tratado.”
Até o momento, o PATHS foi implementado para o gerenciamento de oito condições crônicas: sepse em adultos e crianças, infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral, insuficiência respiratória em adultos e crianças, trauma, abdome agudo, insuficiência cardíaca e detecção de violência.
Para Adriana Gonçalves dos Santos, enfermeira da UPA Tatuapé, “O PATHS é essencial. Ele nos ajuda a cuidar dos pacientes com mais segurança e reduz o risco de erros.”
Resultados que contam uma história humana.
Em apenas nove meses, surgiram melhorias mensuráveis:
- A adesão ao escore de alerta precoce nacional 2 (NEWS2) na admissão aumentou de 0 para 99%.
- A adesão ao protocolo de sepse melhorou de 26% para 89%.
- O resgate oportuno em casos de ataque cardíaco melhorou de 62% para 90%.
E, mais importante ainda, a taxa geral de mortalidade foi reduzida em 15%. Mais de 72 vidas foram salvas desde o início do projeto.
Por trás desses números estão vidas salvas e profissionais de saúde que se sentem mais confiantes e orgulhosos de seu trabalho. Como observaram Márcio Silva Chaves, Marcelo Lima Nascimento e Adriana Benetti, da UPA Perus: “O projeto reduziu a variabilidade no atendimento e uniu as equipes em torno de um propósito comum: proporcionar uma experiência melhor para pacientes e profissionais de saúde”.
Mais do que técnica: uma mudança cultural
“Hoje, nas UPAs participantes, os 5Rs e o PATHS fazem parte da rotina diária”, afirma Maísa Ferreira, enfermeira e especialista técnica da Secretaria Executiva de Atenção Primária, Especializada e Vigilância em Saúde da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo. “Os enfermeiros revisam os indicadores durante a passagem de plantão, os gestores realizam breves reuniões e um senso de propósito compartilhado é visível no cuidado. O PATHS se tornou a nova forma de gerenciar o cuidado de longa duração em todas as UPAs.”
“A UPA em Ação, uma iniciativa de atendimento de emergência que está transformando os centros de pronto atendimento de São Paulo, prova que equidade e excelência podem prosperar juntas — mesmo em uma cidade tão dinâmica e complexa como São Paulo — onde cada resgate é valorizado e cada momento de reflexão se torna uma oportunidade de crescimento. Essa iniciativa inspira tanto as equipes quanto os pacientes, mostrando que, quando priorizamos cada vida e aprendemos continuamente com cada experiência, um progresso notável não é apenas possível, mas inevitável”, concluiu Ferreira.
Olhando para o futuro
À medida que o projeto evolui, suas lições ressoam além de São Paulo:
- Padronização não é rigidez — é confiabilidade com compaixão.
- Medir não é apenas contar — é dar sentido ao trabalho.
- A melhoria não é um evento — é uma forma de trabalharmos juntos a serviço da vida.
A próxima fase aprofundará o envolvimento da liderança, integrará os sistemas de dados e garantirá a sustentabilidade a longo prazo dos 5Rs em toda a UPA de São Paulo.
Ederson Almeida, Diretor de Excelência em Saúde do Hospital Einstein Israelita, afirmou: “Este projeto exemplifica o Quíntuplo Objetivo ao aprimorar a experiência do paciente e do profissional de saúde, reduzir o desperdício e os custos, melhorar a saúde da população e priorizar a equidade no atendimento.”
Paulo Borem é Diretor Sênior na região da América Latina do IHI.
Fotos cedidas pela equipe do projeto UPA em Ação
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